Lilith

“Com uma explosão de lava, luz e partículas incandescentes, que em contacto com o vácuo arrefeceram, cristalizaram e traçaram órbitas perfeitas, o caos deu lugar à ordem e o universo em harmonia preparou-se para existir.

A Terra, um berlinde em equilíbrio no infinito.

O primeiro Homem e a primeira Mulher nasceram de partes idênticas da mesma substância.

Adão e Lilith, habitavam o Jardim do Éden.

Os ramos das árvores tocavam o reino do conhecimento, e as nuvens, de mansinho, silenciosas vigilantes. Um mundo de encanto onde tudo era puro, fresco e bom, e todos os desejos se realizavam.

Adão e Lilith nadavam nos rios, divertiam-se com os animais,  inventavam novos perfumes e sabores.

Só comiam quando tinham fome e só dormiam quando tinham sono, sob um imenso céu de seda onde todas as estrelas se acendiam.

Era uma felicidade plena e inteira que só seria interrompida quando os humanos começaram a inventar necessidades que antes não tinham e a traçar “ objectivos a atingir”.

Aquele tipo de felicidade impossível na esfera mortal, que preenchia cada célula do seu ser e os fazia caminhar para a monotonia e para o tédio existencial.

Uma total ausência de sentimentos de insatisfação, da busca de um sentido e necessidade de questionar.

Cansado da vida errante que levavam – já que todo o Jardim do Éden era uma interminável Primavera que se estendia ao infinito – Adão encontrou uma bela extensão de terra, que muito lhe agradou.

Era um vale verde, muito fértil, onde o rio formava um espelho redondo e brilhante.

Quis construir uma casa, e ficar.

Lilith não concordava. Gostava de correr no vento, sem rumo, sem pressa. Que cada dia fosse diferente do anterior.

Sem regras, nem horas, nem hábitos, nem rotinas.

Às vezes, retirava-se para a montanha onde permanecia solitária durante vários dias.

Adão ficava confuso com esta necessidade de isolamento (ou de privacidade?) , nunca compreendeu a sua natureza.

Por seu lado, a Lilith, parecia absurda a ideia fixa de permanecer num mesmo lugar.

O Jardim do Éden era a sua casa e a montanha o seu refugio.

Adão iniciou a construção.

Alisou a terra, retirando tufos de ervas e cascalho. Depois, recolheu troncos e pedras lisas. Misturou barro em pó com água.

Adão construía durante o dia, e em segredo, Lilith destruía durante a noite.

Adão descobriu a sabotagem e ficou furioso!

Lilith partiu sozinha para a montanha, onde permaneceu por muitos dias.

Adão exasperava, não tanto pela ausência de Lilith, mas porque não suportava a solidão.

Lilith regressou, mas a paz fora quebrada, definitivamente.

A vida no Paraíso tornou-se um tormento de gritos e discussões.

Ao perceber o sucedido, Deus interpelou Adão em relação aos seus problemas conjugais.

Adão desabafou as amarguras que o consumiam.

Lilith era intratável, rebelde, indomável.

Nunca o ouvia, nunca obedecia, não o respeitava.

 

Esmagada, dilacerada. Passou um furacão que lhe deixou a vida em escombros.

Cacos de sonhos, irremediavelmente perdidos.

Como se um denso véu lhe toldasse a visão e o pensamento.

Pária de lugar nenhum, abruptamente empurrada para o abismo do desconhecido.

Caíra desamparada na esfera terrena da dor.

Aninhou-se, enrolada como um bicho-de-conta. Imóvel. Inerte. Até a chuva cessar.

Lilith, expulsa do Paraíso, seria o primeiro ser humano a descobrir a necessidade de se adaptar para poder sobreviver.

Invadiram-na todos os sentimentos negros que até então ninguém havia experimentado.

Caminhou tropeçando em sombras, trilhando um caminho através da floresta.

Como companhia, os animais selvagens: um urso, um tigre, uma serpente e uma loba, acompanharam Lilith no momento de dar à luz.

Deus retirou uma costela de Adão, e criou Eva.

Por não ter sido moldada da mesma matéria-prima, nunca seria igual ao seu senhor. Nunca o enfrentaria. Seria dócil e obediente, eternamente submissa.

Desta forma, os desejos de Adão foram satisfeitos e o Jardim do Éden voltou a ser um paraíso.

Lilith, entregou Enóia (a filha) a uma loba.

A menina cresceu entre a alcateia, enquanto a mãe de todos os ciganos, partia rumo ao Mar Vermelho.”

Excerto do conto “Saharai”, Inês Soares

Lilith e Eva, pintura por Yuri Klapouh (1973)

 

 

 

 

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